"Presente"
- 15 de nov. de 2018
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de jan. de 2019
Acordei. Uma hora antes de ter a primeira aula, gosto de ter tempo para me arranjar, embora tenha um problema com horas e ainda assim chego atrasada. Levantei-me, tinha tempo, pela primeira vez, tinha tempo. Fiz a cama e liguei a coluna. Tocava uma música do Slow J. Gosto de acordar e ser irradiada com boas vibes então Slow J é sempre uma boa opção.
Dirigi-me à cozinha. Abri a persiana, depois a janela e fui à varanda. Não estava frio; não estava calor. Cheirava a outono e como diz a Nocas - "cheirava a lareira acesa". Lembrei-me da casa dos meus avós. Todos os fins-de-semana quando vou a casa, estar em frente à lareira deles é um dos meus momentos favoritos e no outono sabe ainda melhor. Às vezes dói mas eu escondo, às vezes é difícil conter as saudades de casa.
Voltei para dentro e fiz as minhas torradas. De seguida aqueci o leite no micro-ondas e juntei um bocado de chocolate - Nesquik - é o único de que gosto. Sentei-me e comecei a atualizar as redes sociais, é como um ritual todas as manhãs.
Quando acabei o pequeno-almoço, meti a loiça na banca e fui para a casa de banho para lavar os dentes. O som da água a correr acalma-me e relaxa-me. Lavei os dentes e fui para o meu quarto. Escolhi uma roupa e vesti-me.
Depois de me vestir meti a minha fita do cabelo e comecei a maquilhar-me. Comecei por aplicar o creme no rosto - o cheiro daquele creme faz-me lembrar sempre da minha Leonor. A Leonor é a minha afilhada, tem um ano e meio e é a luz dos meus olhos. Lembro-me dela porque cheira a bebé e é tão bom. Terminada a maquilhagem fui novamente para a casa de banho arranjar o cabelo. Nisto ouço a Tixa e a Nocas a chamarem-me para as aulas. Apressei-me e saímos para a faculdade.
Caminho de conquistas
O caminho de casa até à escola não tem fim e é tão curto. A mercearia chama-me à atenção e de repente estou com os meus avós e volto a ser criança. Olho para as laranjas, com ar de suculentas, e a voz da minha avó ecoa-me a cabeça dizendo "Oh filha, come uma laranja. São das nossas" e sorrio. Naquele momento foram as laranjas que me comeram e invadiram os meus olhos.
Uns metros mais à frente, o edifício em remodelação leva-me ao futuro e faz-me pensar que daí a uns meses deixarei a Graciosa. Viseu, tão graciosa, tão cheia de graça e tão minha. Na minha cabeça ela diz "Mas não vás, não agora" e eu completo "que me dás abrigo". Cidade que conquistou o meu coração e que eu vou ter de deixar para poder crescer. E eu que dizia que só ficava uma semana. Mal sabia que era a primeira semana do resto da minha vida. Espero poder voltar e ter uma nova vida naquele edifício, tão antigo e tão triste.
Continuamos a nossa "caminhada matinal" e ao fazer a curva para entrar na escola penso sempre "E se agora alguém viesse de cima e chocássemos?", imagino uma cena à filme e rio-me comigo mesma. Passo pelo Sr. Rocha, ou melhor, por um dos. São dois, gémeos, nunca os sei distinguir mas o meu "Bom dia" sai calorosamente como se do mesmo se tratasse.
Chegamos à sala, mesmo a tempo da chamada e posso dizer que aqui estou eu: "presente".




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