"Para além do cabelo"
- 4 de mar. de 2018
- 2 min de leitura
Aqui está um texto da minha autoria. Escrevi este texto para uma curta-metragem que tive de fazer na faculdade, na cadeira de Interpretação para o Audiovisual. Enjoy! xx
Foi naquele dia… Um dia aparentemente normal… O cabelo já me caía há algum tempo; não liguei… pensava que era uma daquelas quedas capilares normais. Foram piorando, já não era só um fio ou dois que caiam… Acabara de tomar o meu banho, ironicamente, estava a pentear o meu cabelo quando recebi uma chamada; era do hospital… os resultados de todos os exames tinham chegado e pediram que fosse lá com urgência. Arranjei-me e lá fui eu… tinha lido no meu horóscopo que era o meu dia de sorte, aquela quarta-feira… De frente para a médica ela tentou fazer um discurso inspirador mas ao olhar para a minha cara de serenidade, desistiu e disse-me que era leucemia. Esbocei um mini sorriso. Nao queria que ela pensasse que eu estava radiante mas também nao me sentia triste… não estava com raiva… não me questionei “porquê a mim”. Perguntei quando começava com os tratamentos e a médica respondeu que podia começar já no dia seguinte. Saí do consultório e dirigi-me para casa… Quando cheguei a casa, meti a minha música favorita a tocar na coluna, abri as janelas e apreciei aquele dia de sol, sentia-me uma sortuda. Era uma rapariga feliz e com tudo o que desejava, tinha uma família unida e vivia cada dia como se fosse o último, mal eu sabia que podia não acordar nos instantes seguintes. A minha mãe sofreu mais com a notícia do que eu, ouvi- a chorar no seu quarto... não quero que pense que a culpa é dela, aliás, as coisas acontecem por algum motivo e se teve de ser assim, então eu aceito. Não me resta nada mais do que a aceitação. Ela faz-se de forte para me tentar dar força mas sou eu quem lhe dá essa força. Passaram-se meses, e hoje é o dia em que assumo a minha carequinha, tenho lenços de várias cores pois nem sempre está sol para me aquecer a cabeça. Sou feliz. Faço a minha vida como se não tivesse nada. Saío com os meus amigos… Vou ao café com eles, passeio todos os dias de manhã… Não é tudo um mar de rosas, mas nunca desejei morrer, quero viver, há um mundo por descobrir. Tenho dias maus, dias em que nem tenho forças para me levantar da cama e quem me vele nessa altura é a minha mãe. Não tenho medo de morrer. Não sei o que me espera mas vou lutar e agarrar a vida com todas as forças que ainda tenho. De uma coisa eu sei... não gosto de perder nem a feijões. Gosto de desafiar a vida, sempre gostei. Mas desta vez é ela que me está a desafiar a mim; um passo arriscado, não achas "vida"? Não vou baixar os braços e hoje, são 19h da tarde e estou onde quero estar, no meu terraço a ver o pôr do sol, como tenho feito todos os dias da minha vida.

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